Nem parece que se passaram tantos anos… Me lembro de ter descido no terminal do Tietê. Não tinha mala, vim carregando uma sacola plástica com poucas roupas. Naquela época, ainda garoava pela manhã em São Paulo, então para mim fazia muito frio. Peguei o metrô até a Estação Paraíso e depois um ônibus que passava pela Avenida Paulista. Me marcou muito um painel da Aerolineas Argentinas com a propaganda do voo transpolar.

No Brasil, algumas décadas atrás, o imigrante japonês era muito descriminado, excluído e visto até como uma sub-raça. A minha infância foi permeada por um sentimento de exclusão, o não pertencer ao grupo dos colegas da escola. Era como se nós, descendentes, estivéssemos de favor nesse país. Mas, honestamente, eu não sofria por isso, afinal a minha mãe sempre nos ensinou a ser resilientes e ter orgulho das nossas raízes.

Em 1927, o meu pai, Satoshi Yamashita, e sua família se despediram da região de Saga-ken rumo ao Brasil. Em 1934, do outro lado do Japão, em Ishikawa-ken, a minha mãe, Kuniko Yamashita, e sua família fizeram o mesmo.

A minha mãe, hoje com 91 anos, me conta com alegria, porém com a voz embargada em nosso café da manhã diário, que até hoje vê os estudantes e os familiares acenando com as bandeiras do Brasil e do Japão até o navio desaparecer no horizonte. Boa sorte e um breve regresso. Este que nunca aconteceu.

Em 1983, ano em que cursava o terceiro ano de Engenharia Química na Universidade Estadual de Maringá, fui chamada para substituir a filha do dono da agência Goldentur por 3 semanas, enquanto ela acompanhava um grupo para Orlando.

Embora já conhecesse São Paulo, meus olhos brilharam e não resisti por um segundo em deixar tudo para trás e tentar uma nova vida. Não foi coragem, mas um sentimento forte de que era o melhor para mim, um chamado. Acredito que tenha sido Deus conversando comigo.

Próximo a completar as 3 semanas, fui falar com o meu chefe que me disse que completado o meu tempo, teria que voltar à Maringá. Senti uma angustia de ter que voltar, mas eu tinha uma convicção no coração que eu ficaria em São Paulo. Consegui convencer meu chefe a me manter prometendo fazer de tudo: faxina, office girl, vendas, contabilidade, recepção no aeroporto. Depois desses 21 dias, voltei para a minha cidade apenas para visitar os meus pais.

Após 3 anos trabalhando na agência, um cliente/amigo viu em mim potencial e me propôs abrirmos uma agência: eu com o trabalho e ele como sócio financeiro. Eu já nutria o empreendedorismo em mim, pois ouvia o meu chefe (aliás, meu mentor) dizendo que salário contado não fazia fortuna.

E assim compramos a H. Silveira Turismo, que já existia, mas não estava funcionando. Já no primeiro ano fomos muito bem. Naquele tempo, linha de telefone era um investimento alto, mas as demais despesas eram baixas. Duas linhas de telefone, uma máquina de telex e uma de datilografia, eu, um office boy e já era suficiente para levar a agência.

O movimento foi crescendo e chamei a minha irmã, Nizia Yamashita, que já trabalhava com o turismo em Curitiba para ser a minha sócia. Juntas crescemos e progredimos mais.

Em 1989, vivíamos o aumento de descendentes japoneses indo trabalhar no Japão, os dekassegui. Nessa época, o meu irmão Carlos Yamashita, que cursava o quarto ano de Engenharia Civil, viu uma oportunidade de trabalhar no Japão e ganhar um pouco para continuar o curso. Ele me apresentou a um empresário que enviava centenas de descendentes japoneses. Por meio desse contato desenvolvemos, junto com diversos CEOs japoneses, a venda de passagens aéreas. Muitas vezes até acompanhamos grupos até Tóquio. Foi um passo muito importante para a nossa estabilidade financeira.

Com a estabilidade financeira, vem também aquele sentimento que você pode alçar outros voos. Foi quando investi numa franquia de roupas de academia no shopping Iguatemi de Campinas. E quase quebrei. Foram momentos de angustias, com altos gastos, sem ânimo de investir tempo, ainda mais em uma área que eu não conhecia. Não conseguia passar a loja para frente – aliás entrar no shopping é fácil, mas sair, é outro desafio. Foram tantos empecilhos que só queria entregar tudo, buscando que tudo se resolvesse. Foram dois anos de muito aprendizado. Cai, mas levantei novamente.

Estas idas e vindas de empresários para Tóquio duraram cerca de 3 anos na H. Silveira até que eu conheci um australiano de Melbourne (Craig Bavinton) e nos casamos. O Craig, além de estrangeiro, era um viajante que já conhecia boa parte do mundo. Sua visão associada à minha, me fez expandir ainda mais meus horizontes. Juntos percebemos que no Brasil havia uma deficiência de turismo para a Austrália e decidimos abrir a operadora Kangaroo Tours. Lembra daquela propaganda do voo transpolar da Aerolineas Argentinas? Vendemos muito! O casamento deu certo por 15 anos e tivemos uma filha japonesa ruiva (a Tiffany). Ele seguiu outro caminho e eu continuei com a Kangaroo Tours.

O meu irmão voltou do Japão, terminou o curso de Engenharia, morou em Washington DC e trabalhou na área por alguns anos. Até que vimos a oportunidade de convidá-lo para juntar-se a nós no turismo, na área de tecnologia da empresa.

Desde então, a Kangaroo cresceu e se desenvolveu. Hoje operamos praticamente o mundo todo. Somos uma equipe de sócios, formada por ótimos profissionais, os melhores vendedores, pessoas com sangue nos olhos, diferenciadas, que acreditam que um forte é melhor que mil fracos. Seres humanos que fizeram e fazem toda a diferença nas experiências de milhares de viajantes, me ajudam a criar novos empregos e sonham com um Brasil melhor, através do trabalho árduo e honesto.

Fazem parte dessa equipe, à qual sou eternamente grata Carlos Yamashita, Alice Arabori, Custódio Jr e Dinah Carvalho (Kangaroo Tours São Paulo); Ana Carolina Ghellardi e Paulo Guima (Kangaroo Tours Curitiba); Ronaldo Cunha e Rita Attina (Kangaroo Tours Rio); e Celso e Priscila Tsunashima (Kangaroo Tours Goiânia).

E não poderia deixar mencionar a nossa equipe de colaboradores de ouro, pelos quais sou grata eternamente pela dedicação e comprometimento com a nossa empresa e clientes.

E o meu coração transborda de gratidão quando eu penso que tudo isto só é possível graças a um homem que me apoia em tudo, meu marido Rony Perez. Ao lado de uma mulher forte tem também um homem resolvido, de bem com a vida e que deixa os aplausos para o outro.

Um dia eu vou fechar o meu ciclo, mas pretendo que seja com chave de ouro, sabendo que criamos oportunidades de trabalho, pois este dignifica o homem. Planejamos, sim, mas muitas coisas aconteceram organicamente, em um processo fácil de assimilar, um crescimento natural. Este ano a nossa empresa completa 36 anos. Uma organização que ficará para as próximas gerações de profissionais capazes, herdeiros só e somente só por meritocracia, comprometidos, que acreditam no sonho de uma jovem do interior do Paraná que apostou no sentimento de que algo maior lhe aguardava.

Seja bem-vindo à família Kangaroo.

Akemi Yamashita
Diretora