Há viagens que a gente faz para vender. E há viagens que a gente faz para entender por que vale a pena vender aquilo com tanta paixão. Minha passagem por Ruanda e Tanzânia, em outubro de 2025, foi das segundas. Depois de mais de uma década estruturando roteiros de luxo para a África pela Kangaroo Tours, eu já tinha lido cada detalhe, visto centenas de fotos, ouvido relatos de clientes emocionados. Mas nada substitui pisar no chão, sentir o cheiro da terra vermelha do Serengeti, olhar nos olhos de um gorila-das-montanhas a poucos metros de distância. Esse relato é sobre isso: a diferença entre conhecer um destino no papel e vivê-lo na pele.

Kigali: a cidade que se reconstruiu sobre a memória

Cheguei a Kigali depois de um voo longo, mas extremamente confortável, com a Qatar Airways em classe executiva — recomendo fortemente para quem vai encarar essa distância toda até a África Central. A conexão em Doha é tranquila, o serviço é impecável, e chegar descansado faz toda a diferença quando a agenda começa a apertar logo no primeiro dia.

Fiquei apenas dois dias em Kigali, o suficiente para entender por que essa cidade é hoje considerada uma das mais organizadas e seguras da África. As ruas são limpas, o trânsito é ordenado, e existe uma sensação quase palpável de propósito no ar. Ruanda decidiu, depois da tragédia de 1994, se reconstruir como um país de disciplina, tecnologia e turismo sustentável — e isso se sente em cada esquina de Kigali.

O primeiro compromisso da minha agenda foi o Museu do Genocídio de Kigali, também conhecido como Kigali Genocide Memorial. Não existe forma fácil de descrever essa visita. É um lugar de silêncio pesado, de fotografias que perfuram, de salas dedicadas às crianças que perderam a vida naquele período. Caminhar por ali é um exercício de humildade e de memória. Como profissional de turismo, entendo a importância de recomendar esse tipo de experiência aos meus clientes não como “atração turística”, mas como parte essencial de compreender o país que estão visitando. Ruanda não esconde seu passado — ela o transformou em lição, e isso merece respeito e presença.

Na sequência, visitei o Hôtel des Mille Collines, mais conhecido no mundo todo como “o hotel do filme” — sim, aquele que inspirou “Hotel Ruanda”, estrelado por Don Cheadle. O hotel segue em funcionamento normal, recebendo hóspedes, com sua piscina icônica e uma atmosfera que mistura hospitalidade tranquila com um peso histórico inevitável. Tomei um café na área externa, observando o movimento comum de uma tarde qualquer, e pensei em como aquele mesmo espaço, décadas atrás, foi refúgio para centenas de pessoas em um dos momentos mais sombrios da história recente. É impossível não sentir um misto de gratidão e reflexão ao estar ali.

Kigali também me surpreendeu pela gastronomia em ascensão, pelos mercados de artesanato e por uma vida noturna discreta, mas charmosa. É uma cidade que merece mais do que uma escala rápida — e é exatamente por isso que, nos roteiros que desenho na Kangaroo Tours, sempre insisto para que os clientes reservem ao menos duas noites completas por lá antes de seguir para as montanhas.

Rumo às montanhas: o encontro com os gorilas

De Kigali, segui de carro em uma viagem de aproximadamente duas horas e meia até a região de Musanze, na base do Parque Nacional dos Vulcões, portão de entrada para um dos trekkings mais espetaculares e emocionantes que já fiz na vida: o encontro com os gorilas-das-montanhas.

A estrada até lá já é um espetáculo à parte. As “mil colinas” que dão apelido ao país se revelam em cada curva — plantações em terraços que sobem literalmente as montanhas, crianças acenando das beiras de estrada, o verde intenso típico da região dos Grandes Lagos africanos. É uma paisagem que prepara psicologicamente o viajante para o que está por vir.

Me hospedei no Singita Kwitonda Lodge, e aqui preciso abrir um parêntese: já me hospedei em muitas propriedades de luxo ao redor do mundo, mas o nível de imersão que a marca Singita entrega é de outro patamar.

O lodge fica literalmente na fronteira do parque nacional, cercado por floresta nativa que foi replantada como parte de um projeto de conservação de longo prazo. Os quartos (villas espaçosas, com lareira, banheira externa e vista para os vulcões) foram desenhados para que o hóspede sinta que está dormindo dentro da própria natureza, sem abrir mão de nenhum conforto.

No dia do trekking, acordei às 5h da manhã, tomei um café reforçado e segui para o ponto de encontro no parque, onde os rangers dividem os visitantes em pequenos grupos, cada um destinado a visitar uma família específica de gorilas. A caminhada pode variar de 30 minutos a várias horas, dependendo de onde o grupo de gorilas está naquele dia — no meu caso, caminhamos por cerca de duas horas em trilhas íngremes, cortando vegetação densa com a ajuda de facões dos guias.

E então, de repente, ali estavam eles. Uma família inteira de gorilas-das-montanhas, incluindo um silverback imponente, filhotes brincando entre as folhas, fêmeas se alimentando tranquilamente a poucos metros de nós. Temos apenas uma hora permitida com eles — uma hora que passa em segundos. É difícil descrever a sensação de estar tão próximo de um animal tão parecido conosco, tão consciente, tão presente. Muitos clientes já me perguntaram se vale o investimento (a permissão para o trekking tem um custo elevado, definido pelo governo ruandês como parte da estratégia de conservação). Depois de viver isso, posso dizer com total convicção: vale cada centavo, e mais um pouco.

Grumeti: um safári que parece três viagens em uma

Depois da experiência intensa e emocional em Ruanda, voei em um avião pequeno rumo à Tanzânia, mais especificamente para a Reserva de Grumeti, na porção oeste do ecossistema do Serengeti. Essa é uma das áreas mais exclusivas para safári em todo o continente africano, justamente por ter acesso restrito e concessões privadas — o que significa: sem multidões de jipes ao redor de um único leão, sem disputa por ângulo de fotografia.

Aqui vivi uma das experiências mais completas que já tive em turismo de safári: passei uma noite em cada uma das propriedades Singita da região — Singita Sasakwa Lodge, Singita Faru Faru Lodge e Singita Sabora Tented Camp. Cada uma com personalidade própria, mas todas com o mesmo compromisso absurdo com detalhe, conforto e conservação.

O Sasakwa parece ter saído de um romance de Karen Blixen — arquitetura estilo colonial inglesa no topo de uma colina, com vista de 360 graus para a savana. É luxuoso ao ponto de ter até uma quadra de tênis e uma adega premiada, mas sem perder o vínculo com a natureza ao redor.

Já o Faru Faru tem um design mais contemporâneo, com linhas limpas e uma integração impressionante com a paisagem — os quartos têm vidraças enormes voltadas para um rio onde elefantes e hipopótamos passam quase que diariamente.

O Sabora, por sua vez, é a experiência clássica de “tented camp” elevada ao extremo: tendas de lona amplas, decoração inspirada em safáris de outra época, mas com toda a infraestrutura moderna escondida com elegância.

Os safáris em Grumeti foram, sem exagero, alguns dos melhores que já fiz. Avistamos leões descansando à sombra logo nas primeiras horas da manhã, uma manada enorme de elefantes atravessando a estrada bem à nossa frente, guepardos escaneando o horizonte em busca de presas e uma quantidade impressionante de aves — de águias-pescadoras a marabus. Os guias da Singita têm um conhecimento profundo do ecossistema, e cada saída se transforma em uma verdadeira aula de biologia e comportamento animal.

Mas o ponto alto — literalmente — foi o passeio de balão ao amanhecer. Decolamos ainda no escuro e, à medida que subíamos, o sol começou a nascer sobre o Serengeti, iluminando gradualmente a savana infinita, os rios serpenteantes e os primeiros animais acordando para o dia. Sobrevoamos manadas de gnus, girafas caminhando lentamente e, por alguns minutos senti uma sensação de silêncio e imensidão que é difícil de traduzir em palavras. Aterrissamos em um ponto pré-determinado da savana, onde a equipe já havia montado uma mesa completa de café da manhã, com direito a champanhe, no meio do nada. Se existe uma experiência que resume o motivo pelo qual as pessoas se apaixonam pela África, é essa.

Arusha e um capítulo inesperado da viagem

Encerrando o roteiro terrestre, voei até Arusha, cidade que funciona como principal porta de entrada para o circuito norte de safáris da Tanzânia (Serengeti, Ngorongoro, Tarangire, Manyara) e também para quem sobe o Kilimanjaro. Fiquei uma noite no Melia Arusha, um hotel moderno, bem localizado e com ótima infraestrutura para quem precisa de uma parada confortável antes de seguir viagem ou embarcar de volta ao Brasil.

Foi justamente durante essa etapa da viagem que vivi o momento mais inesperado — e, confesso, mais desafiador — de toda a experiência. A Tanzânia enfrentava, naquele período, protestos e manifestações intensas contra o governo local, o que gerou instabilidade em diversas regiões do país, incluindo interrupções pontuais na comunicação. Fiquei cerca de cinco dias praticamente sem acesso à internet, sem conseguir me comunicar normalmente com a equipe da Kangaroo Tours no Brasil nem acompanhar notícias com facilidade.

Não vou fingir que foi uma situação confortável. Como profissional que lida diariamente com a segurança e o bem-estar de clientes ao redor do mundo, esses foram dias de atenção redobrada, de contato constante com os guias e a equipe local da Singita, que — vale destacar — demonstraram um profissionalismo impecável, mantendo protocolos claros de segurança e me informando sobre a situação sempre que possível através dos canais de comunicação do próprio lodge, que operam de forma independente das redes convencionais.

Esse episódio, ainda que tenso, também me ensinou algo importante que sempre repito para minha equipe: viajar pela África — como viajar para qualquer lugar do mundo, aliás — exige parceiros locais sólidos, com estrutura de verdade, capazes de garantir segurança e informação mesmo em cenários adversos. Foi justamente a solidez da operação Singita e o suporte da nossa rede de contatos em campo que me deram tranquilidade para seguir a viagem sem sobressaltos maiores, mesmo em um contexto de instabilidade política que fugia completamente do meu controle. Assim que a situação normalizou e a internet voltou, retomei contato com a família e com o escritório, e segui tranquilamente para o retorno ao Brasil.

O que essa viagem me ensinou (e o que ela significa para os roteiros da Kangaroo Tours)

Voltei dessa viagem com uma bagagem que vai muito além das fotos e lembranças pessoais. Voltei com a certeza absoluta de que Ruanda e Tanzânia, combinadas em um único roteiro, formam uma das experiências mais completas e transformadoras que a África tem a oferecer.

Ruanda entrega história, memória, reconciliação e um dos encontros com a vida selvagem mais emocionantes do planeta — o trekking com gorilas. É uma experiência que exige preparo físico, mas que recompensa com uma conexão quase espiritual com a natureza.

A Tanzânia, por sua vez, especialmente na região de Grumeti, oferece o que há de mais exclusivo em safári de luxo: espaço, privacidade, densidade de vida selvagem e uma infraestrutura hoteleira de padrão mundial, como comprovam as propriedades Singita.

E, sim, vivi também o lado imprevisível de viajar por regiões em desenvolvimento, com realidades políticas próprias e desafios que fogem do controle de qualquer operadora. Isso não me afastou do destino — pelo contrário, reforçou a importância de viajar com parceiros que realmente conhecem o terreno, que têm infraestrutura própria e capacidade de resposta rápida diante de imprevistos.

Na Kangaroo Tours, seguimos com ainda mais convicção estruturando roteiros que combinam Ruanda e Tanzânia, sempre com hospedagens de altíssimo padrão, guias experientes e um acompanhamento próximo antes, durante e depois da viagem. Porque no fim das contas, viajar pela África não é apenas sobre ver animais selvagens ou paisagens de tirar o fôlego — é sobre se permitir ser transformado por lugares, histórias e pessoas que carregam uma resiliência admirável.

Se você está pensando em viver uma experiência parecida com essa, recomendo com todo o coração: reserve tempo suficiente para Kigali, encare o trekking dos gorilas com respeito pela intensidade física do percurso, e escolha bem onde vai se hospedar no Serengeti — porque a diferença entre um safári bom e um safári inesquecível está, muitas vezes, nos detalhes de quem cuida de você durante a jornada.

Foi uma das viagens mais intensas, emocionantes e reveladoras da minha carreira. E se você quiser trocar uma ideia sobre como estruturar um roteiro parecido — seja para Ruanda, Tanzânia, ou uma combinação dos dois — estou à disposição, como sempre.

Até a próxima aventura, Custódio Junior Diretor de Vendas — Kangaroo Tours

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